Crônicas de Lene - Odisseia
A casa para onde a gente volta
Há histórias que são tão antigas que já não sabemos quando as ouvimos pela primeira vez.
Talvez porque tenham sido contadas antes de nós.
Talvez porque, de algum modo, já estivessem dentro de nós.
Foi assim que assisti a A Odisseia.
Na tela, um homem atravessa mares, tempestades, monstros, deuses e tentações. Há guerra, há morte, há medo. Há a imensidão azul do mar e a pequenez de um homem diante dela.
Mas eu não conseguia pensar apenas em Odisseu.
Pensava na palavra voltar.
Voltar.
É uma palavra pequena para uma coisa tão grande.
Odisseu quer voltar para Ítaca. Quer voltar para Penélope. Quer voltar para o filho. Quer voltar para aquilo que era seu antes que a guerra lhe roubasse tantos anos.
E talvez seja isso que torne uma história de quase três mil anos tão próxima de nós.
Porque todos nós temos uma Ítaca.
Nem sempre é uma casa.
Às vezes, é uma pessoa.
Às vezes, uma lembrança.
Às vezes, somos nós mesmos.
Há momentos em que a vida nos leva para longe de quem éramos. Atravessamos mares que não planejamos, enfrentamos tempestades que não escolhemos e, no caminho, perdemos algumas coisas que julgávamos eternas.
E continuamos.
Porque é preciso continuar.
O que mais me comoveu em A Odisseia talvez não tenha sido o tamanho das batalhas, nem os monstros, nem os deuses.
Foi a espera.
Enquanto um homem lutava para voltar, havia alguém esperando.
E existe uma espécie particular de amor na espera.
Penélope não atravessa os mares com Odisseu. Não enfrenta o Ciclope. Não luta contra os perigos da viagem.
Mas permanece.
E permanecer também pode ser uma forma de coragem.
Saí do cinema pensando que talvez a vida seja feita de pequenas odisseias.
Nós também partimos.
Nós também nos perdemos.
Nós também encontramos pessoas que parecem deuses e outras que se parecem com monstros.
Nós também somos tentados a esquecer para onde estávamos indo.
E, de vez em quando, precisamos parar diante do mar e perguntar:
Para onde eu quero voltar?
Talvez essa seja a pergunta mais bonita que um filme pode nos deixar.
Não "o que aconteceu?"
Não "quem venceu?"
Mas:
Onde está a minha Ítaca?
Porque há lugares que nos recebem.
Há lugares que nos transformam.
E há aqueles raríssimos lugares para onde o coração continua voltando, mesmo quando o corpo já percorreu o mundo inteiro.
Quando as luzes do cinema se acenderam, fiquei alguns segundos sem me levantar.
O filme havia terminado.
Mas a viagem não.
Talvez porque algumas histórias não terminem quando sobem os créditos.
Elas simplesmente deixam o barco no mar e nos entregam o leme.
E nós voltamos para casa levando conosco uma pergunta antiga, dessas que parecem ter sido feitas especialmente para cada um de nós:
Depois de tudo o que vivi, para onde ainda desejo voltar?
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